17/07/14

A senhora da janela

Perto de casa há muitas janelas. Muitas floridas janelas. No prédio quase ao lado do meu, numa construcao antiga e cor de rosa, de janelas gastas num azul que já fora bonito, há uma senhora que todos os dias, pode ser vista olhando o movimento da rua. De cabelos curtos, encrespados e brancos, ela passa seu tempo olhando tudo. Pode ser inverno, pode estar nevando, chovendo granizo, sol tinindo, lá está ela, todos os dias. Na janela. Meu filho sempre que passa por lá, olha para o primeiro andar à  procura da "senhora da janela", como dizemos nós dois. - Olha Pedro, lá está ela, a senhora da janela. - Ele olha e acena: hallo! mesmo estando longe, do outro lado da rua. 

Ela já conhece o horário em que ele passa, e parece ficar a espera do hallo do meu filhinho. Faco que nao olho diretamente e percebo de rabo de olho o seu interesse. Ele fala: - olha mae, a senhora da janela. E grita um hallo bem alto e acena. Ela se anima, acena de volta  e continua acenando, até que entremos na linha fora de sua visao. Pessoas passam por ela, algumas conversam, a maioria a ignora. Ela deve conhecer a fisionomia de todos da rua. Laura, minha filha, quando soube que conversamos com a senhorinha, me perguntou certa vez assustada: - O que? Você está falando daquela velhinha de cara rabugenta que tem mó jeito de fofoqueira? - Engracado. Passa tudo pela minha cabeca quando a vejo, menos isso. Vejo uma senhora solitária, que mora num prédio meio acabado, à espera de notícias e acenos. Sua figura é tao marcante para mim e Pedro que quando nao está à espreita, sentimos sua falta. A primeira vez que a notei, nao ligava muito pra ela. Depois, falei um olá e ela respondeu sem vontade. Continuava a passar por sua janela diversas vezes, e seus duros hallos foram devagar, se transformando em tons mais suaves, assim como é suave o tom de azul e rosa do lugar. Nao dá pra desistir de ser gentil.

Outro dia, ela estava caminhando, indo em direcao ao supermercado. Até me assustei em vê-la em outro ambiente. Conversamos um pouco, ela me perguntou do menininho. Um olhar sereno, uma fala rápida, o clima que mudou, as previsoes do tempo que já nao sao tao boas como antes. Um bom dia. Sem aceno, ela fica outra. Sentiu falta do menininho que diz hallo e ciao ao passar de bicicleta pela janela. 

Gosto de vê-la. É como se fosse o termômetro dos dias. Faz cara feia enquanto deixa parte de sua janela aberta, quando o vento está forte, se encolhe em seu pulôver, quando esfria, se esgueira na janela, quando coloca sua coberta pra tomar um ar, quando esquenta, e pisca os olhos quando o sol está forte. Gosto dela.

Vou fazer um bolo mais tarde e levar pra ela. Vou dar pela janela e desejar um bom dia. Levarei menininho comigo. Sei que se sentirá feliz.

16/07/14

Faca você mesma sua manteiga de ervas

Alemao adora fazer churrasco. Quando comecam os primeiros dias quentes de primavera, basta você abrir a porta da sua varanda, pra sentir o cheiro mais típico de verao por aqui. É normalmente, muito diferente do brasileiro, mas é também gostoso. A única coisa que ainda me faz falta, é ter uma carne realmente saborosa, mas a gente se acostuma. Come-se carne bovina, suína e de carneiro e vários tipos de salsichas, afinal, estamos nao somente na Batatolândia, mas também na Salsichalândia. E aqui você encontra todo tido possível e imaginável de salsichas e linguicas. Porém, uma das principais diferencas do churrasco brasileiro, é o acompanhamento, este será sempre de saladas deliciosas e pao. Muito pao! Você nunca verá aqui arroz e farofa como acompanhamento de churrasco! Nunca, em hipótese alguma. 

Para o pao, o alemao terá sempre à mesa, uma manteiga chamada Kräuterbutter, que quer dizer, ao pé da letra,  manteiga de ervas. Geralmente comprada em supermercado, prontinha e muito saborosa. Há  anos nao compro pronta, porque gosto muito de fazer eu mesma e acho bem mais gostosa. 


Essa manteiga é usada nao somente pra passar num baguete, por exempo, que você come com o churrasco, mas também pode ser usada por cima da carne ainda quentinha. Eu gosto tanto, que uso em vários outros pratos, como recheio por debaixo da pele do frango, quando o asso no forno, pra dar uma finalizacao no arroz ou no molho do macarrao. Acho deliciosa. 

Quer fazer também?
Pegue um pacotinho de qualquer manteiga, deixe um pouco fora da geladeira, até que ela fique num ponto bom de amassar no garfo. Coloque um pouco de sal, amasse uns dois dentes de alho (se gostar) e acrescente folhinhas secas de qualquer erva que preferir. Pode ser tomilho, orégano, salsinha, enfim... Misture muito bem, coloque num recipiente fechado, deixe na geladeira por algumas horas e pronto.

Simples e muito bom! 

08/07/14

Preconceito contra amazonenses

Faco parte de uma "minoria". Sou fruto de uma terra extraordinária, porém, frágil, onde sao as árvores que firmam o solo e nao o contrário. Sou índia, em termos. Em poucos pedacos de mim. Misturada, sim senhor! Mas índia com orgulho. Minoria por ter sido e ser, massacrada pelos brancos e pelos encardidos. 

Essa Copa tem trazido lembrancas à minha mente. Lembranca das vezes que fui maltratada pelo meu próprio povo, o resto do Brasil que se considera tudo, menos índio. Que se considera maioria. Grande coisa... 

O fato de minha cidade, Manaus, ter sido escolhida pela Fifa como melhor cidade sede da Copa, fez com que os pobres amazonenses, geralmente, acostumados a desrespeito, se sentissem um tiquinho valorizados. Elogiados, nao, obviamente, pelo seu próprio povo, claro que nao, mas pelos "de fora". Onde moro atualmente, na Alemanha, em qualquer lugar que vou e menciono de onde venho, ouco sempre um "oohhhhh", cheio de encantamento. As pessoas aqui amam o Brasil e sao fascinadas pelo Amazonas. No Brasil nao foram poucas as vezes que senti a repulsa das pessoas quando sabiam de onde sou. Já ouvi muita brincadeira sem graca e xingamentos "engracadinhos" do fato de sermos índios. É triste. Nao por sermos índios, mas por sermos maltratados por o sermos. Mais triste ainda, é notar que essa brincadeira tola e estúpida, machuca a integridade e o modo de se ver, das nossas criancas amazonenses. Nao é raro ouvir um xingamento entre elas próprias, "tu é uma índia mesmo! Sua caboca" dizem elas, sempre num tom pejorativo. Nao é raro vê-las chorarem, magoadíssimas, ao ouvir tal comentário. E nao é raro ver minhas próprias sobrinhas, entrarem na porrada, umas com as outras, quando sao assim xingadas. Nao adianta nada a tia Nina ir ter com elas e tentar explicar o quao bonito é ser índia. Elas nao querem saber. Se sentem feridas na sua beleza, ditada por modismos tolos da mídia e aumentadas pelos anos e anos de depreciacao e preconceitos, vindos do resto do Brasil: "Índio é feio, tia. Nao quero ser índia".

Nao sei se um dia o povo brasileiro se dará conta de que somos um povo. Nao uma raca somente, mas um povo. Misturados na beleza disso. Índios, negros, nordestinos, os gordos, os feios, os sem-bunda, favelados... 

Entao penso nos alemaes. Eles gostam de discutir essas questoes, gostam de ficar discursando sobre as diferencas culturais e nao compreendem porque pode haver discriminacao contra nós, os índios, dentro do Brasil, um país extremamente misturado. E sabe de uma coisa? Nem mesmo eles tem o direito de falar sobre isso. Sinto a mesma aversao sendo índia no Brasil que os "Bauer" devem sentir na Alemanha.  Bauer sao, literalmente, gente que trabalha com terra, em fazendas. Eles sofrem preconceitos aqui e as pessoas sao  assim denominadas, mesmo nao sendo realmente Bauer, quando se vestem mal, quando tem pouca escolaridade, quando comportam-se mal em sociedade, etc. O preconceito surge da ideia de que, quem trabalha somente com as maos, nao precisa de muito recheio cerebral.
Fato é que, alemaes tem problema sério com aqueles que nao estudaram feito "felasdamae". Pra eles, parece que tem valor, somente aqueles construídos na escola e posteriormente, na universidade,  o resto é tudo Bauer. E esquecem que seu próprio sistema escolar é um agente contribuidor para isso.
Entao, nao compreendo que eles se sintam superiores a nós, ao falarem dos índios. Eles sao tao preconceituosos como meus conterrâneos da parte "rica, produtiva e tao civilizada" do Brasil, que matam a pauladas e com fogo, um mendigo sem teto, por exemplo. 

Nao tomo mais parte em nada disso. Já nao discuto, já nao pesquiso, já nao me ofendo, já nao entro em brigas. A única coisa que sei, é que amo de onde venho e amo minhas raízes. Amo ver meus filhos que cresceram naquela terra, comentarem com seus amigos alemaes ou de outros tantos paises, o que faziam na infância. Amo que eles tenham lembrancas de tomar banho no rio, de remarem em canoas nos igarapés, de terem tido contato com macacos e tantos outros bichos, de terem uma mae que tem muita história pra contar, desde a comer formiga tanajura com farinha a ver cobras e sereias inventadas, na beira do rio.

No fundo, nao é isso o que importa?

Foto: Pedro Martinelli
AMAZONAS, eu sou dali!

03/07/14

Quadros e plantas no banheiro

Banheiro. Tá aí um lugarzinho que as pessoas nao costumam dar muito valor, né nao? Ele é quase sempre relegado a segundo plano, isso quando ao menos, se pensa no pobrezinho. Tenho que confessar que minha relacao com banheiro nao é grande coisas nao. O negócio todo comigo é muito vapt vupt. Nao sou daquelas de ter longos banhos  ou levar jornal ou revista pra ler sentada no vaso. To fora! Mas acho legal cuidar bem do lugar. Uma boa limpeza diariamente, é fundamental! 

Aqui, quando se comeca o processo de alugar-se uma casa ou apartamento, a primeira coisa que as pessoas costumam observar é se há janelas nos banheiros. Coisa mais que essencial em país que no inverno, o dia escurece tao cedo, além de ser importantíssimo pra dar uma boa arejada no ambiente com frequência.
Mas nem só de limpeza e janelas vivem os banheiros. Decorá-los também é algo bacana, nao é?

Nosso banheiro é relativamente grande. Tem uma ducha e uma banheira, que é muito comum em muitas casas na Alemanha. Em vez de uma janela, há uma porta de vidro (do tipo esfumacado) que é elaborada para clarear ainda mais o ambiente. Infelizmente, todas as paredes sao azulejadas, o que me proibe de pintá-las. Por isso coloquei uns quadrinhos coloridos (usei um tipo de adesivo pra prendê-los ao azulejo) e distribui algumas plantas.


É bem simples, e eu nao morro de amores por ele nao. Tenho vontade de fazer um ambiente mais romântico, mas realmente, ainda nao sei como. De qualquer forma, acho legal os pontos coloridos no bichinho, que é extremamente branco e muito dessa cor num só ambiente, me dá um pouco de náusea :-(

Quer me dar umas ideias?
E no teu banheiro, que tem nele?

26/06/14

Muito obrigada!

Obrigada Senhor, pela vida que Tu tens me dado, pela Tua grande misericórida em me dar tanto e muito mais do que somente o necessário. Obrigada pelos meus filhos. Por eles serem bons, honestos, bonitos, inteligentes. Pelo pai dos meus dois primeiros filhos, que na dificuldade em que vivíamos, foi sempre uma pessoa melhor que eu. Obrigada pelo pai do meu cacula, que é o melhor marido que uma mulher pode desejar. Obrigada Senhor, pela boa, responsável, cuidadosa e forte mae que o Senhor me concedeu ter nesta vida. Pelo meu pai ausente mas amoroso à sua maneira até sua morte, e até pelo meu padrasto, o qual eu sempre pensei que nao gostava. Obrigada pelos irmaos que tive o prazer de ver sempre ao meu lado, me acompanhando em meu crescimento. Pelas brigas e rompantes que tínhamos, pelas encrencas em que nos metíamos, pelas brincadeiras inventadas na pobreza, pelos patins e bicicletas, pelas quedas e arranhoes e cortes de queixo. Pelos Natais, pelas Páscoas, pelas refeicoes, pelas mangueiras e lagartas de fogo... Obrigada pela doce e terna avó que Tu me destes, por sua bondade comigo, por seu amor sempre presente quando tudo parecia me faltar. Pelas nossas conversas e risadas, pelas bonecas de pano que ela fazia, pela maciez dos babydolls inesquecíveis que ela costurava pra nós. Pela sua pele macia de avó, pelos seus cabelos ralos, por sua testa alta, por seus olhos bons. Pelas vezes em que ela adorava receber nossos cartoezinhos no dia das maes e elogiava nossa letra, mesmo nao sabendo ler. Pelas vezes em que ela doente, me abracava e dizia que ia melhorar, acalmando assim meu coracao de neta apaixonada. Obrigada pelas primas que tive e que entravam na porrada com todo mundo na rua se precisassem nos defender.  Obrigada pelas escolas que frequentei. E pelas escolhas que tomei. Pelos amigos que fiz e pelas amizades que desfiz. Obrigada pela saúde perfeita, por eu ter nascido mulher, pelas vezes em que fiquei grávida e pelas vezes em que nao fiquei. Obrigada por ter me feito nascer no Amazonas. Por ter crescido e me criado perto daquele rio. Pelos botos e peixes e sereias que vi. Pelas árvores que refletem no rio quieto, pelo sol sempre presente da minha infância. Pelo banzeiro que o barco faz no rio que vai até a margem, devagar e pesadamente. Obrigada por eu ter me formado engenheira florestal mesmo quando nem eu mesma acreditava ser possível, e por toda a imensa luta pela qual passei pra me formar, mas ainda assim, muito obrigada por eu ter escolhido ser uma dona de casa realizada. Por toda a experiência que ganhei nas dificuldades, por todos os ribeirinhos que encontrei no meu trabalho na floresta, por todo peixe e acaí que degustei na presenca terna daquelas pessoas que tao pouco tinham mas que tudo de si com alegria me deram. Obrigada pelas noites enluaradas, pelo friozinho ameno da noite em dia quente, pelo barulho da mata, pelas conversas ao luar. Obrigada Senhor. Obrigada por nao ter me deixado morrer sem ser mae, sem falar do meu amor ao papai antes de sua morte, sem ter conhecido meu atual marido. Obrigada por ter me livrado de tantas situacoes difíceis e de outras tantas que escapei mesmo sem saber. Obrigada por todas as dificuldades pelas quais passei, por toda dor que senti, por cada lágrima derramada. E obrigada principalmente, mais importante que tudo o que falei e deixei de falar, por ter me tocado, por ter me permitido conhecer do Seu Amor! 

Obrigada meu Pai, por ser meu Pai! 

***

Ontem estava conversando com meu filho Joao. Ele estava se queixando de algumas coisas. Falei, como costuma falar toda mae, que ele tem muito mais do que eu tive. Joao entao, comecou a enumerar algumas das muitas coisas especiais da minha vida, como minha avó e minhas irmas e primas. Ele tem razao. Tive e tenho tanto. Por isso este post hoje, em agradecimento a Deus, que sei e creio, que se faz ser ouvido até por aqueles que nao creem em Sua existência.

25/06/14

Bel e a neta de Deus


Estava cuidando das plantinhas aqui de casa quando lembrei da minha amiga e irma em Cristo, Bel. Ela mora algum tempo em Berlim. Segundo ela, a vida na cidade tem lhe apresentado várias situacoes interessantes. Hoje quero compartilhar uma de suas experiências. O dia em que Bel conheceu uma moca com características muito alema: fala o que tem vontade de falar sem receio de ofender. Geralmente quem fala o que quer, ouve o que nao quer, nao é? E a Bel nao se conteve e também falou o que teve vontade...


"Estava andando numa rua e fiquei observando uma florista arrumar suas flores na sua linda loja. Ela perguntou se eu desejava algo, mas respondi que apenas admirava as flores, que eram lindas. Ela perguntou de onde eu era, fez a maior festa para o Brasil, falamos da Copa, do jogo que teria logo mais, ela disse que o Brasil tem espécies lindas de flores e até citou uma orquídea exclusiva do Brasil que eu nem sabia.  Ela me perguntou se eu gostava de flores ao que presto respondi que sim, que eu amava flores. Ela disse que era uma apaixonada por flores e gostava de aprender sobre elas o tempo todo, então me perguntou o nome de algumas no português. Que vergonha, eu só sabia “o nome da Rosa”, girassol, tulipa, margarida, violeta e lírio. Tentei me desculpar e levei um sermão que mexeu muito comigo!



Ela me disse, com todas as letras: “Então não repita mais que você ama as flores, você não sabe nada sobre elas... Quem ama procura aprender sobre todos os dias. Você deve é gostar do que elas te proporcionam: beleza, cor, perfume, magia etc, ou seja, você é uma exploradora das flores, não uma amante delas. Eu sim as amo, vivo por elas, não me imagino sem elas. São tão importantes para mim que é para elas que dedico a maior parte do meu dia”.

Ela falou toda sorridente, simpática, mas confesso que a firmeza com que ela falou, me tocou porque ela revelou algo sobre mim que nem eu sabia e porque também me levou a refletir. É verdade, o diagnóstico dela sobre mim foi correto. Eu sou, realmente, uma oportunista, me aproveito do que as flores me proporcionam mas não me dedico a elas. Nem tenho flor natural em casa, só artificial...




Fiquei meditando nas palavras dela e pensando no Senhor Jesus, em Deus! Quantas pessoas dizem amá-Lo, mas no fundo só querem o que Ele pode proporcionar.

Quanto procuramos conhecer sobre o Senhor? Quanto do nosso tempo dedicamos a ler a Palavra Dele? É nela que aprendemos sobre Ele! É ela que nos faz conhecê-Lo, dia após dia. O profeta Oséias disse: “Então conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor…” (Oseias 6:3a). Aquela mulher, sem nem conhecer o meu coração acertou em cheio sobre mim! Que dirá Deus, que conhece tudo sobre nós, sabe o que ocupa o nosso coração, sabe se é Ele ou não. Não adianta tentarmos mentir para Ele!
O meu silêncio a incomodou, ela achou que tinha exagerado na dose e se desculpou, dizendo que não tinha tido a intenção de me ofender e eu lhe tranquilizei dizendo que as palavras dela tinham me levado a meditar sobre a minha relação com Deus, que eu deveria buscar conhecer mais Dele. Foi neste momento que ela foi dura comigo: “mas por que você acha que precisa conhecer o que você não vê? Vale muito mais a pena você conhecer sobre as flores!”.

Eu não ouviria isso calada, jamais! Não porque eu seja encrenqueira, mas porque eu tinha o dever de dizer para aquela mulher que NADA vale mais a pena do que conhecer Jesus Cristo! Comecei a entender que eu não havia parado ali sem um propósito de Deus e agarrei aquela oportunidade que Ele estava me dando de tentar ajudar aquela pobre mulher a conhecer o que há de mais valioso na vida! Eu perguntei se ela amava a Deus e então eu conheci a neta de Deus…


Ela me disse assim: meu avô era pastor, mas minha mãe não seguiu a religião, meu pai não seguia nada e eu acho que puxei a ele, não perco tempo com isso, prefiro me dedicar às minhas flores, mas como meu avô era cristão, então posso dizer que sou também.
Eu: mas você ama a Deus?
Ela: claro que amo!
Eu: então você poderia me dizer alguma coisa sobre Ele? Sobre o Filho Dele, alguma coisa que Ele tenha falado na Bíblia, que é a Palavra Dele, em alemão?
Ela: ah não posso, eu não sei nada sobre isso, sobre Bíblia, até tenho uma Bíblia em casa mas não leio nunca.
Eu: ahhh, então você ama a Deus igual eu amo as flores! Ou talvez menos, pois aqui eu conheço pelo menos seis das flores que Ele criou e que você comercializa...

Trocamos um olhar silencioso durante alguns segundos e então eu a consolei: mas não se preocupe, apesar da sua situação ser pior do que a minha, pois as flores não sabem que minto sobre a minha relação com elas, já Deus sabe tudo, mesmo assim Ele continua te amando e esperando que você aceite o presente que Ele enviou para nós há mais de dois mil anos: Jesus Cristo! Eu já O aceitei! As suas flores não precisam sair do seu coração para Ele entrar, elas se tornarão ainda mais lindas depois que você deixar de viver por elas e passar a viver para o Criador delas. No dia que você crer em Jesus Cristo e o aceitar como o seu Salvador, você deixará de ser uma neta de Deus, passará a ser uma filha Dele! Quando você puder, leia o capítulo 1 do evangelho de João e preste atenção no que diz o versículo 12.

E anotei para ela: João 1.

Jesus disse: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; e porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida e poucos há que a encontrem", então eu disse a ela que Jesus disse que Ele é a porta, Ele é o caminho e disse mais: "Ninguém vem ao Pai, senão por mim".



Ninguém irá a Deus se não for através de Jesus. Foi Jesus quem disse isso! Nisso me lembrei de uma mensagem preciosa, bem curtinha que ouvi um dia, A Porta Estreita, em que o irmão diz assim: "Por que a porta é estreita? Por que para você ser salvo você precisa seguir uma lista de restrições? Não! A porta é estreita porque é individual. Para ter acesso a Deus você precisa passar sozinho e pela única porta que existe, Jesus! Não existe outra porta? Ahhh, existem muitas, mas a única que leva ao Pai é Jesus".


Ela ficou sabendo que o fato do avô dela ter entrado pela Porta garantiu a salvação somente dele, que ela para garantir a dela, precisa entrar pela Porta também. O avô não é garantia para ela porque Deus não tem netos, bisnetos, sobrinhos, primos, Ele tem apenas filhos.

Logo depois eu me despedi dela!

Antes de me despedir deste post, quero deixar umas perguntas para você. E quanto a você? Você já pode dizer que é um filho de Deus? Você já recebeu Jesus Cristo? Se você não o recebeu, você não foi feito filho de Deus ainda.

Não sou eu que estou dizendo isso, é a Bíblia que diz em João 1:11 e 12, falando sobre Jesus: "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber: aos que creem no seu nome". Desculpe se você não gostou do que leu, você pensa que eu gostei quando a florista me expôs dizendo que eu não amava as flores? Não gostei, mas isso não mudou o fato de que ela disse a verdade, e olha que ela nem me conhece.



Eu decidi parar de mentir sobre a minha relação com as flores, não sei o que a florista decidiu sobre a relação dela com Deus, mas eu tinha que dizer também a você que Deus não tem netos, nem bisnetos, nem sobrinhos, nem primos!"
por Bel Fusaro

O que achei mais bonito nisso foi o toque de Deus na Bel. A maneira como ela respondeu ousadamente. Eu confesso que sou uma cagona. Sempre tenho receio de incomodar as pessoas falando sobre o Deus que amo e sirvo. Admiro a Bel e sua fé e forca. Por isso compartilhei sua experiência com você. E ainda completo o post com um comentário bíblico que nosso irmao Mário fez no post da Bel e que achei mais que lindo!
Isa 40:6-9 "Uma voz ordena: "Clame". E eu pergunto: "O que clamarei? " "Que toda a humanidade é como a relva, e toda a sua glória como as flores do campo. A relva murcha e cai a sua flor, quando o vento do Senhor sopra sobre eles; o povo não passa de relva. A relva murcha, e as flores caem, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre. Você, que traz boas novas a Sião, suba num alto monte. Você, que traz boas novas a Jerusalém, erga a sua voz com fortes gritos, erga-a, não tenha medo; diga às cidades de Judá: 'Aqui está o seu Deus!"

19/06/14

Criado mudo reformado

Há um mercado das pulgas numa cidadezinha francesa perto de onde moro que é uma tentacao pra quem gosta de coisas usadas e baratas. De vez em quando vou lá comprar qualquer coisa velha pra reformar, já que curto muito fazer esses trabalhinhos manuais. Há tempos estava querendo um criado mudo mais bonitinho, já que o meu era uma velha mala improvisada como uma mesinha, em cima de um banquinho. Aquilo já estava ficando meio vergonhoso. 
Entao fui ao Flohmarkt  e comprei esses dois da foto abaixo. Ambos por dez euros apenas!



Limpos e bem lixados, tinta e uma camada de verniz e pronto!


Trouxeram uma boa arejada ao quarto, nao é?


11/06/14

Deixar Deus? JAMAIS!

Como me disse uma amiga crista, estou na fase da caverna. Assim como o profeta Elias numa caverna se escondeu com medo das pessoas e de Deus, pensando que poderia se esconder do Senhor, tenho me refugiado na minha própria caverna interior. Tenho passado por situacoes nao muito agradáveis nas últimas semanas. Usando termos cristaos, passo atualmente por algumas tribulacoes. Tive decepcoes com pessoas muito próximas e comigo mesma, essa última desencadeada pela primeira, acabou sendo a mais dolorida. É duro dar de cara com o que somos. 
Certo dia ouvi um pregador falando que uma das primeiras coisas que Deus nos mostra ao nos convertemos a Ele, sao nossos pecados. É como a luz que incide sobre nós na escuridao. Ela nos revela nossos erros. Ao sentirmos a luz, a tendência é fugir dela, assim como fazem os vermes embaixo de uma pedra. Quando esta é retirada, os vermes fogem desesperados. Porque a luz mostra o que nao queremos ver. Deus é luz, nEle nao há escuridao. Conforme você vai caminhando em direcao a Ele, seu caminho vai se "alumiando" e seus erros vao surgindo cada vez mais clara e fortemente. Alguns fogem com vergonha de Deus e duvidam do Seu amor. "Como pode Ele amar alguém tao podre quanto eu?"

Deus parece ter me feito um tratamento levemente diferente. Primeiro Ele me apresentou Seu grande amor, Sua leveza, Sua paz, Seu carinho comigo  e devagar, foi me mostrando quem eu verdadeiramente sou. E essa visao de quem sou é muito importante para que Deus possa fazer de mim a pessoa que Ele quer que eu seja. Sem essa licao, nao posso aprender dEle, nao posso crescer na fé, nao posso ter Cristo formado em mim... Tenho estado em contato com  meu interior ultimamente, me conhecendo. Há algum tempo, pensava que era alguém especial, sabe? Pensava mesmo! Me orgulhava disso ou daquilo. Hoje, devagar, estou levando meus joelhos ao chao, coberta de lágrimas, envergonhada. Pedindo que Deus me torne alguém mais humilde. Que me encorage a ser mais dEle e menos minha. Que me ensine, que me mostre mais. Tenho confessado ao meu Senhor, erros e pecados, que antes nem considerava a possibilidade de um dia revelar. Erros que nem eu sabia que eram erros. Confessado que nao passo de um nenén que ainda precisa de leite. E principalmente pedido que Ele me toque mais uma vez. 

E sim. Ele tem me tocado. Tem me falado. Tem me consolado. Tem sido um Pai amoroso e cuidadoso que segura minha mao ao atravessar a rua, um Pai que me permite encostar a cabeca no Seu peito. E que enxuga minhas lágrimas...

Uma das situacoes que me surgiram esses dias, foi alguém que muito considero, me falar que Jesus nao me ama tanto quanto eu penso e em outras palavras, que eu deveria esquecer tudo isso. Mas me pergunto, porque deveria eu deixar Deus de lado? Isso é simplesmente i-m-p-o-s-s-í-v-e-l! Por todas as coisas que Ele é, e que das quais nao sei nem mesmo sobre uma molécula (acho que esse termo nao é correto, Deus nao deve ter moléculas), sei o que Ele fez por mim. Se você nao conhece esse amor, vou exemplificar apenas uma das coisas que esse Deus fez comigo. Entao, imagine uma cena. Imagine que você tem vivido miseravelmente por trinta anos, lembrando de coisas terríveis de um passado triste e tem nesses trinta e poucos anos, lutado pra se livrar disso tudo sem a menor chance de sucesso. Por isso você chora cada vez mais, todos os dias, se sente mal, deprimido, solitário, abandonado, mesmo que seu físico nao exteriorize isso. Mas você sabe como sofre sua alma. Entao um belo dia, alguém surge e apenas te abraca como se tivesse bracos mágicos. E tudo o que você sentia, some, desaparece como bolha de sabao. Poc! Some! Você fica tao grata, maravilhada, porque alguém conseguiu a maior proeza jamais imaginada na sua vida, que decide sempre prestar homenagem a essa pessoa, quer acompanhá-la onde quer que ela vá. A pessoa que te abracou fica feliz com a sua companhia. Mas alguém diz pra você que aquilo nao é real, que você está enganado, que a dor nao saiu, que aquele abraco mágico nao existiu e que você deve carregar para sempre seu fardo porque esta é a sua "sina". 

E aí?
O que você faria?
Será que com esse pequeno exemplo, você pode compreender a extensao e enormidade do que Deus fez comigo?


Entao querido amigo, agora falo com você diretamente, sinto muito, mas o que você falou está absolutamente, totalmente, 100% fora de questao... desse Deus nao quero, nunca, distanciamento e se um dia esse desejo terrível surgir em meu coracao, prefiro que Ele me leve daqui. 
E sinceramente, acho que é você quem precisa desse abraco.
Porque nao tenta pedir a Ele?




ps. e você, maninho em Cristo, também passando por tribulacao? Veja esse texto que um amigo me enviou. Aqui o link:  nao estejais inquietos por coisa alguma

06/06/14

Se alimentando bem

Ainda é de manha. Já deixei Pedrinho na escolinha, já cuidei da casa e das plantinhas e já fui a feira da cidade. Só em caso de emergência compro produtos que sao vendidos frescos, em supermercado. Saladas, verduras, tubérculos, frutas, ovos, só compro na feira, onde sei que esses produtos vem de pequenos agricultores da regiao em que vivo. Sei que pode ser uma questao pouco prática pra alguém que trabalha fora. Nao é o meu caso. Tenho tempo. Sou dona de casa e posso me dar ao luxo de ir a feira quase todas as manhas, comprar alimentos frescos. Mas nem tudo o que é prático é bom. Praticidade nao significa conforto nem qualidade de vida. Há que se ter, a meu ver, o bom senso de se dar mais tempo e valor para a vida que temos em família. Eu nao quero que meus filhos enquanto morarem na mesma casa que eu, se alimentem aqui dentro, de porcaria. É por isso que prezo por cozinhar com amor pra eles e usar nesse processo, coisas saudáveis. Se eles estao ligando ou nao para meu esforco, nao interessa. O que sei é que esse sentimento de afeicao ao que de fato, é importante pra mim, é que me motiva a fazer o que faco. É muito fácil culpar o clima, as pessoas, o relógio, o trabalho, e ficar arranjando desculpa eternamente por nao se dar um pouco mais àqueles que importam. É muito fácil, prático, rápido e moderno, passar pelos corredores do supermercado enchendo o carrinho de produtos congelados, enlatados e coisas "frescas" cheias de agrotóxicos, em vez de tirar pelo menos um dia da semana pra pensar no que se está levando ao estômago.

É muito fácil ser uma mulher moderna. Nao quero ser! Nunca tive vida fácil...



05/06/14

Ovo poché e minha avó

Todas as vezes que faco o tal do ovo poché, gosto de ficar observando seu movimento na água. Torcendo pra que ele saia perfeito. A chance de o ovo quando colocado na água quente, nao juntar suas partes, deve ser pequena, porque sempre dá certo, porém, o risco existe. Mas no fundo de mim existe uma menininha que espera que o ovo "desande" na panelinha e se misture a água, formando uma coisa etérea e sem forma. É que isso lembra muito a minha infância. 

Nao, ninguém fazia ovo poché na minha casa, mas minha avó fazia o "caldo da caridade". Você certamente nao conhece, a nao ser que venha da Amazônia, ou talvez, de alguma parte do nordeste e seja já um tanto coroa ;-) Na verdade, o próprio caldo da caridade, nao leva ovo, o verdadeiro, se nao me engano, é o "cabeca de galo" ou algo assim, mas gosto de lembrar do caldo da minha avó quando cozinho. Essa é uma das coisas que me lembram muito a velhinha Laura. 

Nao havia doente que nao se recuperasse com aquele caldo de lindo nome. A palavra que me faz pensar em vovó: caridade. Ela nao tinha posses. Vivia das suas costurinhas e da ajuda de seus filhos. Mas vovó sempre cozinhava mais do que precisava pro caso de algum necessitado bater a sua porta. Ela tinha sempre panelas enormes no fogao, mesmo estando só ela em casa ou no máximo uma ou duas netinhas por perto. E alguém com fome sempre aparecia. Havia a dona Esmeralda, por exemplo, que me lembrava a Madame Mim. Era uma senhorinha muito sofrida, que inclusive diziam, era agredida pela nora.
Ela tinha um odor muito característico e diziam que até banho a velhinha era proibida de tomar em casa. Todo fim de tarde, dona Esmeralda ia na casa da vovó comer alguma coisa. Às vezes, ela ia só pra ficar conversando com minha avó e ficava olhando da janela, enquanto minha avó costurava nossos babydolls, que eram sua especialidade. Eu gostava de vê-las conversando. Eram duas velhinhas muito velhinhas, pra mim, que devia ter no máximo uns cinco anos. Parecia que elas eram de outro mundo. Um mundo de gente caquética e sem dente, mas doce e gentil. É lembrando da dona Esmeralda, que quando morreu, vovó nem ficou triste e disse que finalmente, a sofrida amiga velhinha teria sossego, que penso que caridade seja a palavra que melhor define minha avó.

E quando nao tinha comida, vovó fazia o caldo da caridade. Ela deveria pensar que todo necessitado era meio que doente da alma e esse caldinho, feito com farinha de mandioca fina e ervas, levantava mesmo qualquer defunto. Fosse de corpo ou de alma. 

A mesma coisa acontecia quando havia alguém doente com dor no peito ou nas costas. Vovó fazia umas rezas usando algumas folhas de qualquer coisa, apertava o doente daqui e dali, e o colocava, quando o caso era mais grave, de molho num banho com folhas. Depois, o doente ia pra cama, tomar o caldo da caridade e sentir todo o acolhimento e amor que aquele caldinho proporcionava. Era um tempo sem remédios, e esses cuidados que vovó tinha conosco, era tudo o que tínhamos. 

Uma avó zelosa, folhas retiradas do jardim de ervas que ela tinha e caldo feito de farinha. Pra que remédio?

Se pudesse me ver cozinhar, sei que vovó teria orgulho de mim. Ela era boa cozinheira com seu jeito simples e com os poucos recursos que possuia. Lembro tanto dela me mandando fritar peixe. Eu tinha pavor de me queimar com os respingos da fritura, e enchia meus bracos de pano de prato. Ela ria. Daquele jeitinho tao especial que tinha. Me olhava com tanta ternura! Sentávamos pra comer, só nós duas, enquanto ela dizia que quando morresse, eu herdaria suas coisas. Eu olhava a casa com poucos móveis, um armário velho de madeira robusta, uma penteadeira com perfumes antigos e talcos de velho, algumas moedas, uma cama com mosquiteiro, uma panela de ferro pesadíssima, umas poltroninhas de couro, uma máquina de costura, uma casa de madeira apodrecida: - vó, a senhora nao vai morrer, nao fala isso, dizia eu toda preocupada.  - Nao vou virar pedra, Pinguinho, respondia minha amada. 
E continuávamos a comer quietas. Até que ela comecasse a contar piadas repetidas tantas e tantas vezes e que eu sempre morria de rir.

E o peixe sempre tinha um gostinho especial. E o caldo da caridade também. E o acaí. E o tutano do osso que comíamos escondidas, com farinha e acúcar. Tudo feito com a ternura eterna da minha avó que sei, um dia, vou reencontrar no céu. Essa é uma das poucas certezas absolutas que tenho na vida: um dia encontrarei minha avó de novo e toda a saudade de mais de trinta anos de afastamento, se acabará...      


 Na foto, risotto com batatas e cenouras raladas, com rúcola, ervilha e ovos. 
Querendo a receita, me fala que te passo.