13/09/2012

Páginas arrancadas de um diário

Esta postagem faz parte da blogagem coletiva Uma página do meu diário, organizada pela Alê Lemos, do blog Diário de Bordo. 


 * * *
 

"Quando eu mostrei o diário da Nina para a mamae, a mamae ficou muito triste..."

Dá pra acreditar que uma das minhas pequenas irmas fez essa traicao comigo? Nao foi por maldade, claro, foi somente a atitude de uma menininha de 11 anos que ainda ouvia Xuxa e adorava os Ursinhos Carinhosos e o He-Man, e que queria apenas que a irma mais velha voltasse pra casa.

Eu tinha fugido de casa num início de noite quando nao havia ninguém mais além do meu irmao vendo TV e algumas semanas depois que minha irma mais velha havia sido mandada embora de casa, escorracada pelo nosso padrasto, simplesmente porque seu namorado ao ir buscá-la pra um passeio num domingo de manha, ousou entrar em seu quarto pra ajudá-la a carregar umas coisas (!!!).

Soube desse detalhe  no meu diário porque minha irmazinha escreveu com a própria letra, depois de ter arrancado todas as páginas já escritas do diário de capa jeans e cadeado sem chaves que eu tinha há alguns meses. Ela resolveu que poderia continuar o diário no nada, como se fosse novo e dela, mas essas foram as únicas palavras que escreveu e ainda teve coragem de me mostrar. Eu queria matar a minha monstrinha-irmazinha-preferida, mas de alguma forma, saber que minha mae leu algumas páginas que falavam de coisas que ela era em boa parte, responsável, me deu um certo alívio. Na verdade, nunca falei com minha mae sobre isso, mesmo porque nunca teria coragem. Nem me lembro o que tinha escrito ali... mas posso imaginar. Certamente coisas que ajudassem uma filha adolescente a compreender  como uma mae pode dar a impressao de dar mais valor a um homem que a seus 5 filhos...

Mas só fui compreender minha mae, muito tempo depois. 

Adolescentes sao em sua maioria, simplesmente fixados em si mesmos, muitos nao conseguem ver além de seu próprio umbigo e só acham que eles sofrem, esquecem todas as dores do mundo a sua volta. Além disso, filhos já grandes, vao embora, maridos podem permanecer e ao envelhecer, há uma possibilidade de deixarem de ser nojentos, beberroes e sem vergonhas, e assim, dependentes e velhos, permanecerem sob custódia daquelas que eles já fizeram de gato e sapato. Seria a vitória (??) daquela mulher que sofreu desde os primórdios de sua juventude com homens que definitivamente, nao a mereciam. Verdadeiros canalhas. Incluídos aí, e infelizmente para minha vergonha,  meu próprio pai. Pai dos 4, dos 5 filhos da minha mae.

Bem, nesse tempo (em que saí de casa, nos meus exatos 18 anos) os diários deixaram de ser importantes pra mim. Vacilei deixando o bichinho lá, à mercê de uma irmazinha sonhadora. Eu havia deixado muitas coisas na casa, porque saí de repente, sem nenhuma programacao, levando apenas algumas roupas e materiais da recém iniciada, faculdade. Fugi sem dar explicacao alguma, apesar de sempre ir visitá-los, mas nunca ultrapassar a porta de casa porque éramos proibidas de entrar. Pra sobreviver, tive que parar a facul e ir trabalhar, porque o curso era diurno e deixei a casa da mamae pra morar com um namorado que era o retrato fiel do meu pai (em termos de safadeza). Abandonando tudo, aceitando ser mal tratada por um namorado e depois por outro e me formando muitos anos depois.

Diário? Nunca mais tive, somente folhas soltas porém bem guardadas, que quando eu acabava de escrever, ficavam moles e úmidas, gracas às muitas lágrimas arrancadas como as folhas. Depois, elas iam crepitar no Céu das Folhas de Diários Queimadas. Achava que assim, curava as feridas. 



Coragem de escrever coisas tao pessoais, só surgiu novamente nesse "diário virtual" aqui. E tá bom. 
Mae nunca abre internet mesmo :-)

24 comentários:

  1. É verdade, mãe nunca abre a internet!!! O "céu das folhas" que expressão lirica para um ocorrido difícil... Eu reluto em conta episódios tristes de minha infância e adolescência, tento não narra-los para ver se eles deixam de existir... Mas eles vão sempre está ali... guardados no céu das folhas queimadas ou coladas!!!

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  2. rssss....Mãe não abre internet?rsrs Que lindo isso! Adorei tua página participação!!beijos,chica

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  3. Quando eu era adolescente,também tinha um diário, mas infelizmente o perdi. Ele era um tanto que raivoso e triste, mas acredito que se na época eu pudesse enxergar um pouco melhor o meu mundo em volta, talvez as dores e frustraçoes seriam menos intensas...

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  4. Oi Nina!!!
    vc sempre consegue trazer lembranças minhas a tona... rsrsr... isso é bom, pois são lembranças boas!!!
    Eu tive muito diários, e os tenho até hoje... e dou risada quando releio... são apenas sonhos de criança-adolescente... nada mais.
    Gostei do nome que você deu ao post... e a história das folhas arrancadas...
    beijoss

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  5. Que relato lindo e forte, Nina. Quanta coisa pra contar.
    Eu também já briguei muito com meus pais, acho que todo adolescente, mas nunca assim de forma tão drástica.
    Amei seu post.
    Beijo, Nadia

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  6. Nina, eu nunca tive diário. Tentei uma vez, quando adolescente, mas a vida não deu tempo pra isso.
    Como você, o blog é meu diário. Já foi mais, ou eu é que tinha mais coisas pra exorcizar...
    Gosto de ler seu diário rsrsrsrs e nem sou menininha de 11 anos rsrsrs
    bjsssss

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  7. E ah, sim, não gostei de morar em Manaus, mas moraria de novo porque mudou muito e está muito melhor, mais desenvolvida, melhor cuidada. Meus pais e meu irmão ainda moram lá. Mas amo o Rio sim. Muito. :)
    Beijo, Nadia

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  8. Nina, também não sou muito simpatizante em escrever coisas tão pessoais na web, no entanto, respeito quem o faz. Cada um sabe o que é melhor para si, para muitos, isto é uma válvula de escape.
    Sua participação foi muito bem feita, embora triste. Eu não sou ligado a generalizações, penso que nem todo adolescente seja assim egocêntrico. Portanto, não precisa se preocupar tanto quanto se mostrou preocupada com seus filhos em meu post. Somos todos diferentes de acordo com a educação que tivemos, o ambiente que vivemos e a própria personalidade. Desculpe-me, mas eu discordo que pessoas "de fora" possam ser mais importantes do que filhos. Talvez eu seja uma pessoa mimada por ter duas mães (não admito chamar a outra de madrasta, visto que ela sempre foi uma mãe para mim), mas, como se diz: cada um de nós sabe de sua própria dor e renúncia. Por isso, este comentário é somente uma opinião que não deve ser levada a sério na íntegra.

    PS: Gostei demais do lirismo que deu ao texto e, com certeza, páginas de diários são mais seguras queimadas. rs.

    => CLIQUE => Escritos Lisérgicos

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  9. Voce esta de volta, Nina! Que bom!! hehehe
    Bjksss

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  10. Eu escrevi diarios dos 10 aos 20..tenho 30 hoje...
    sempre ´´sonhei´´em fugir de casa, mas meus motivos eram fracos demais, eu sabia que voltaria da esquina, por que minah vida dentro de casa nao era tao ruim assim como eu queria que fosse, acho que essa fase de adolescente é a melhor de todas as fases, esse egocentrismo de que ´´eu sofro mais´´e ninguem me entende é algo que só temos nessa fase(que bom) um dia a gente cresce e ver o roda gigante que é o mundo girar, e ai nao temos mais a desculpas de que somos apenas adolescente olhando pro nosso proprio umbingo, que pena, rsr
    Hoje 10 anos depois de ter parado eu voltei a escrever em diarios de papel, aqui nao tem a onca pitada do meu pai pra ler sem eu deixar rsrs.
    BJS Ninoca.

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  11. Se não cura as feridas ao menos alivia. Também fugi de casa, mas eu sempre fui medrosa, então nem saí do condomínio rss só queria ver se minha mãe sentiria minha falta. Ela não sentiu kkkk fiquei tão magoada! Mas fazer o que né? Minha vó distraiu ela com as brigas de sempre. Acabei voltando pra casa sozinha. Uma vez minha mãe leu meu diário e fiquei aterrorizada. Foi na época que minha autoestima estava pior, então foi realmente chato as coisas que ela leu. E o pior é que veio tomar satisfação comigo kkkkk

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  12. Caraca, que barra, hein!? Impressionante sua determinação.

    Ah, gostei muito do seu blog! Fofo!

    Beijos! :)

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  13. Oi nina,
    Só para você saber, mãe abre internet sim,kkkkk, só para descontrair querida, também tive muito problemas com meus padrastos, menina foram tantos. Que por fim fui morar com minha avó aos seis anos. Mas lembro de muitas coisas.
    Mas enfim a gente supera fica carente, mas nada que não possamos continuar vivendo.Afinal um beijo carinhoso de minha filha alivia qualquer dor.
    Parabéns pela coragem de abrir uma pagina de seu diário tão intima.
    Beijinhos.

    http://eternamentevv.blogspot.com.br/2012/09/uma-pagina-de-meu-diario.html

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  14. A minha mae abre a internet diariamente, só que ela não visita meu blog pq gosta de blogs de moda e segundo ela meu blog é de dona de casa chata kkkkkkkkkk Pode isso? Bjs

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  15. Eu acredito que boa parte das feridas, se não foram curadas, foram amenizadas nesse crepitar de folhas moles e úmidas!
    Adorei o relato e também a oportunidade que essa blogagem trouxe de conhecermos novos amigos, novos diários virtuais.
    beijo

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  16. Eita Ninoca, acompanhar você por este diário aqui, sempre foi uma delícia!
    Sabe, eu nunca tive diário e nem senti vontade na minha juventude, acho que era porque tinha muitas coleguinhas e a gente trocava confidências no blá blá blá mesmo.
    Hoje, meu blog é quase um diário, porque escrevo nele quase diariamente, e se ficar sem ele, sinceramente, sinto uma falta dos diabos.
    um beijão carioca


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  17. Nina,
    que emocionante sua página! Nem sei o que comentar...simplesmente me emocionei.
    bjs
    Jussara

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  18. Estou como a Jussara, possuída por emoções por que quando li o último parágrafo desabei em lágrimas. Se um diário é expor emoções, quem não chora lendo o seu próprio diário não é merecedor das emoções que já sentiu. Não fique triste por que chorei. Chorar para mim ainda é uma benção, pois poucas são as vezes que me emociono ao ponto de chorar. Eu sei que está bem e que deu um tapa no destino que no passado lhe foi mostrado, mas imaginei você com apenas 18 anos tomar a decisão de sair de casa, parar a faculdade, interromper a sua vida por insegurança da sua mãe. Enfim, não acha que vale a pena retornar ao bloguinho? :) Beijus,

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  19. Nina, que barra você passou! Estava lendo,aqui,com um aperto no coração. Fiquei me imaginando no seu lugar.É nessas horas que agradeço pelos pais maravilhosos que tenho. Tenho a plena certeza que,entre um marido e os filhos, minha mãe escolheria a gente.Mas, se de repente você souber porque a sua foi conivente com o seu padastro, eu gostaria de saber os motivos (em off,se puder e quiser).

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  20. Alguns pequenos esclarecimentos, minha gente:

    "Minha" mae nao abre a net e dou gracas a Deus por isso :-)

    Foi mesmo uma fase complicada, como alias, foi complicada boa parte da minha vida

    NUNCA vou achar que alguém de fora pode ser mais importante que os filhos da gente, NUNCA mesmo

    Minha mae nunca nos explicou porque preferiu ficar com o marido

    O fato é que quem mais sofreu com essa história toda, foi minha irma mais velha, ninguem a defendeu e ela nao esquece esse dia horrivel na vida, nunca esqueceu e eu me sinto mt culpada ate hj por isso. Fugir foi a unica coisa que pude fazer pra mostrar minha indignacao com o fato :-(

    Nunca briguei com meus pais, era mt fraca pra isso

    Hoje tá tudo bem entre todos da família. Mas o padrasto nunca pediu perdao pela covardia :-( Mamae e eles estao juntos e felizes há mais de 30 anos.

    Obrigada pelos comentarios tao bacanas!

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  21. Nossa, Nina! Adorei lhe conhecer. Admiro sua coragem e força por ter tomado as decisões que tomou. Eu não troco homem por filhos não. Recentemente me separei justamente por isso, por amor às minhas filhas.
    Beijinho...

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  22. Nina,
    foi tamanha a intensidade contida em teu relato que me comoveu.As cruezas e injustiças sofridas o tempo abranda, mas não apaga.Tuas páginas sinceras marcam os diários de todas nós,filhas que fomos, mães que somos.
    Receba meu abraço afetuoso.
    Bjkas,
    Calu

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  23. Oi Nina, tudo bem?

    Ai, fiquei agora emocionada com os teus escritos. Pra ser sincera, adoro os teus escritos, os teus apontamentos a tua maneira de escrever. Parece que vc está aqui do meu lado me contando essas coisas.

    Eu tentei ter um diário, pois sempre gostei de escrever, mas acabei escrevendo um conto dentro do diário, rs. Inventei zilhoes de personagens. O diário ficou assim como revista em quadrinho.
    Eu já fui mais de falar cara a cara com a minha mae as coisas que ela fazia e que eu nao gostava ou que me magoava e sabe, meus filhos fazem a mesma coisa comigo. Falam na minha cara qdo eu os magoo com alguma palavra ou se eu nao os escuto e digo que tá tudo bem. Essas coisas de mae, rs.

    Imagino como nao deve ter sido dificil o sair de casa e constatar que tua mae tinha razao...

    Um grande beijo e um lindo fim de semana

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  24. Boa tarde...Menina, voce me emocionou, pois ao te ler,
    me vi em alguns trechos.
    Não fugi de casa, mas fui saindo
    de mansinho, levando minhas coisas
    aos poucos sem que ninguem percebesse.
    Quando deram por mim, estava morando
    com minha tia, mas nem ligaram, afinal, eu era invisivel no meio de sete irmãos...Adorei teu post.,e voce é muito corajosa te admiro!
    Não sou corajosa, mas sou guerreira e até hoje, enfrento tudo e todos sozinha, claro acompanhada de DEUS!
    Abraços carinhosos e te sigo, gostei muito daqui!

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